fuga e vida valentina
chegada da trupe a Valentina é quase como um ritual que se inicia. o espetáculo significa muito mais do que uma troca de vinténs por risadas; marca o dia de foto familiar, de encontro de compadres, arranjo de casamentos e despejo de flertes ingênuos de molecotes em suas pretendentes. para camélia, primogênita dos abreu, no entanto, é muito mais que isso: é a única ocasião em que ela se sente verdadeiramente próxima de sua paixão.
talvez fique difícil imaginar o que seria o fascínio circense no interior de minas, lá pelos idos de 1920. quiçá você pense que o amor da rapariga veste camisa engomada e sapatos lustrados; engana-se. se tivéssemos de adorná-lo, idealizaríamos uma mulher de calças compridas, cabelos inversamente curtos e cigarro pendente; um disparate! sim, a menina é irremediavelmente apaixonada pela Liberdade. aquela mesma que guia o povo na tela de delacroix e motiva as mentes excitadas da semana de arte moderna.
dá-se o fato de que, na noite de estréia do circo, deixa a casa uma família inteira, voltam a ela parentes despedaçados. camélia fugira. não pôde suportar a profusão de tantos estímulos coloridos nem o encanto desregrado da agitada bagunça dos camarins; ficara. buscava não só distância dos olhares repreensivos dos pais, mas também refúgio do moralismo excessivo da cidade do interior. ao esconder-se em uma das cabines ocupadas pelos malabaristas, sabia muito bem que parte de seu coração se contorcia em apreensão e prematuras saudades, porém tinha certeza da rota que queria seguir, rumo à insana são paulo.
“o que você vinha fazer aqui, mamãe? onde pensava que ia trabalhar?”, pergunta o mais moço de seus três filhos. “nem Deus desconfiava., querido, nem Deus.” prefere dar aí por encerrada a narração de sua jovem vida, por entender que a pouca idade do guri o privará de compreender algo além dos fatos. “é uma questão de tempo”, pensa ela, “até que ele aceite que, para a alma humana, não é preciso razão, apenas ocasião. pequenas centelhas são capazes de grandiosos incêndios. basta saber dar vazão ao que se é de verdade e essa mania ainda há de nos levar além”.
olha a que ponto chegamos! postando a redação do colégio… é a única coisa que eu me mantenho escrevendo, por livre e espontânea pressão, então vai ela mesmo. infelizmente meus livros de literatura estão com uma grossa camada de pó, meu gmail não mais me reconhece quando entro e já assinei o atestado de óbito da minha televisão (isso não tão infelizmente assim, vá. ela estava acostumada à uti, de qualquer forma.) vem, vestibular, VEM!